pouco a pouco
vou apagando
os espaços
gravados nos vãos
dos passos dados
na direção do aqui
assim, serei eu, parado,
no mesmo estado de contemplação
como se nunca houvera caminhado
até então
este momento
antes da separação dos movimentos
do pé e do chão
o poeta é fingidor,
mas o verso é verdadeiro
negando assumir a dor
revela o ser por inteiro
se o poeta sente e mente,
quem mente sente também
e mesmo a dor não sentida
quando lida lhe advém
daí a volta da ida,
qual a vida fosse um trem,
em cada dor repartida
nasce um poeta também
(*) do livro labirintohomem
Sabe a historia de olhar dentro do abismo? Eu sempre quis estar dentro do caos ou a beira do precipício. Era o risco que me agradava. O orgulho de ter chegado próximo do fim e voltado com vida. Meus velhos medos não me assustam, porém a viagem de volta sempre cansa mais. Mas posso dizer: estive lá. Olhei o inferno de cima do vulcão e nunca mais fui o mesmo. Agora o abismo me conhece e está vindo atrás de mim.
Imagina um rato que foi na cozinha e pegou um pedaço de queijo mas não consegue voltar para o buraco na parede porque o gato esta deitado no tapete da sala..
imaginou?
Agora esquece tudo porque isso não tem nada a ver com a narrativa.
antes era o inevitável quase-chegar de um mistério
e vinha como a noite e logo amanhecia perdendo-se na luz
qualquer compreensão prévia era um mero tatear de coisas simples
banalidades escondidas, e banais, num canto que era sequer um caminho
havia um prazer símio e primata neste esconde-esconde
e certo masoquismo cognitivo em dar murros em pontas de facas
agora é só o sangue jorrando e muralhas sem portas
um conforto estático como cócegas de escarras
orgasmos múltiplos na convulsão febril do tédio
tudo se dissolve
n'água
tudo se resolve
o mundo se afoga
a mágoa
se lava
a cara se renova
caio em circulos
chão e céu
são vagas referências
da superfície extinta
do suporte até meus pés e
da amplidão até meus olhos,
qualquer tangente que vislumbro
é outra queda
o inverno não nasceu
quando o homem pisou
pela primeira vez na neve
mas o frio ganhou sentido
no arrepio de sua pele
o homem que queria ser livre
sentou-se sobre os calcanhares
alisou a superfício do rio
molhou de frio os dedos e a mão
lavou o rosto
adormeceu-lhe a face
o dia nasceu
era inverno
Acordo com o lábio inferior rachado e dolorido, como se tivesse levado um soco e colocado limão por cima. Um gosto metálico vem das minhas obturações antigas, feitas ainda na infância, e que gradativamente liberam o mercúrio para dentro de mim. Passo a ponta da lingua nos dentes e sinto uma camada grossa de sujeira , tento engoli a saliva mas ela não chega a molhar a garganta. Sim, é assim que me sinto, seco. Meus olhos doem à claridade da luz amarela e enquanto eu tento me acostumar meu estomago solta um barulho que nem eu mesmo reconheço. Sinto um estranhamento diferente do estranho que sou todos os dias, um nao-reconhecimento total. A televisão ligada mostra um filme antigo do Peter Coyote usando um casaco surrado de camurça, que se parece com o que eu uso agora. Percebo que dormi na sala novamente, ao menos não foi no banheiro. O pescoço não dói devido ao costume de dormir sempre na mesma posição no meu sofá de legitimo couro sintético, no entanto a cabeça parece seguir o ritmo dos meus batimentos. Consigo me sentar na terceira tentativa e noto que ainda estou de botas de borracha, sinto o frio das barras da calça úmida, e percebo um barro vermelho grudado nelas. Meu lábio continua latejando e minha barriga faz um familiar barulho de fome. Lembro que não coloco comida na boca desde domingo à tarde, quando fique à espera. Falta pouco tempo para amanhecer e eu já tenho que sair novamente. O trabalho nunca termina e ainda tenho muita gente para encontrar nesse meu ofício. Espero que o próximo não me dê muito trabalho.
(poema de pressagio)
tenha calma
quando o destino é seguir
não importa onde se vá
qualquer lugar é aqui
neste tempo
(qual?
passou!)
onde estamos,
onde estou
onde está
infinito-presente-já
lugar de sorrir, de criar, de brincar, de cescer, de ser, de amar, de ficar, de chegar,
de partir, de cantar, de chorar, de sofrer, de doer, de errar, aprender, levantar, de cair
de ensinar, levantar e seguir
giros
ciclos
órbitas!
rabiscadas em
vãos
espaços
vazios
é aqui que somos um.
quando o despertador tocou
o corpo esqueceu de novo
mas o cérebro previu o futuro:
eu não morri!
foi um sono
o corpo, o cordão e a estrada
o vácuo, o pulmão e o chão
a gravidade, a luz e o teto
um sonho esquecido
num universo secreto
entre meio – adormecido
e meio – desperto, me peguei
tentando fugir
sem ter
para onde ir.
o corpo
desprovido de encaixe
como um caixa
sem fundo,
erra
sem caber
ou saber participar
a alma antecipa
a falta de ar
e BERRA.
umbigo
ambíguo:
metade mãe
metade menino
fio, conduto, fino
ponte, canal
canudo
cano
umbigo...
se não me engano,
é por onde eu me desligo
dentro do meu desejo
encerra-se um motor
é nele qu'eu viajo
para onde eu for,
mas quase não me movo
apenas queimo o meu querer
o mundo que eu quero já É
antes de ser
eu reconheço
antes de ver
eu ofereço
antes de ter
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