obra (*)

 

pouco a pouco

vou apagando

os espaços

gravados nos vãos

dos passos dados

na direção do aqui

 

assim, serei eu, parado,

no mesmo estado de contemplação

como se nunca houvera caminhado

até então

este momento

antes da separação dos movimentos

do pé e do chão

autopsicanálise (*)


o poeta é fingidor,

mas o verso é verdadeiro

negando assumir a dor

revela o ser por inteiro

 

se o poeta sente e mente,

quem mente sente também

e mesmo a dor não sentida

quando lida lhe advém

 

daí a volta da ida,

qual a vida fosse um trem,

em cada dor repartida

nasce um poeta também

 

 

 

(*) do livro labirintohomem

mini-conto 2

Sabe a historia de olhar dentro do abismo? Eu sempre quis estar dentro do caos ou a beira do precipício. Era o risco que me agradava. O orgulho de ter chegado próximo do fim e voltado com vida. Meus velhos medos não me assustam, porém a viagem de volta sempre cansa mais. Mas posso dizer: estive lá. Olhei o inferno de cima do vulcão e nunca mais fui o mesmo. Agora o abismo me conhece e está vindo atrás de mim. 

mini-conto 1

Imagina um rato que foi na cozinha e pegou um pedaço de queijo mas não consegue voltar para o buraco na parede porque o gato esta deitado no tapete da sala..
imaginou? 
Agora esquece tudo porque isso não tem nada a ver com a narrativa.

improviso para um desespero

 

antes era o inevitável quase-chegar de um mistério

e vinha como a noite e logo amanhecia perdendo-se na luz

qualquer compreensão prévia era um mero tatear de coisas simples

banalidades escondidas, e banais, num canto que era sequer um caminho

havia um prazer símio e primata neste esconde-esconde

e certo masoquismo cognitivo em dar murros em pontas de facas

agora é só o sangue jorrando e muralhas sem portas

um conforto estático como cócegas de escarras

orgasmos múltiplos na convulsão febril do tédio

 

n'água

 

tudo se dissolve

n'água

tudo se resolve

o mundo se afoga

a mágoa

se lava

a cara se renova

vertigem

 

caio em circulos

chão e céu

são vagas referências

da superfície extinta

 

do suporte até meus pés e

da amplidão até meus olhos,

qualquer tangente que vislumbro

é outra queda

junho II

 

o inverno não nasceu

quando o homem pisou

pela primeira vez na neve

mas o frio ganhou sentido

no arrepio de sua pele

 

junho

 

o homem que queria ser livre

sentou-se sobre os calcanhares

alisou a superfício do rio

molhou de frio os dedos e a mão

lavou o rosto

adormeceu-lhe a face

o dia nasceu

era inverno

Varsóvia

Acordo com o lábio inferior rachado e dolorido, como se tivesse levado um soco e colocado limão por cima. Um gosto metálico vem das minhas obturações antigas, feitas ainda na infância, e que gradativamente liberam o mercúrio para dentro de mim. Passo a ponta da lingua nos dentes e sinto uma camada grossa de sujeira , tento engoli a saliva mas ela não chega a molhar a garganta. Sim, é assim que me sinto, seco. Meus olhos doem à claridade da luz amarela e enquanto eu tento me acostumar meu estomago solta um barulho que nem eu mesmo reconheço. Sinto um estranhamento diferente do estranho que sou todos os dias, um nao-reconhecimento total. A televisão ligada mostra um filme antigo do Peter Coyote usando um casaco surrado de camurça, que se parece com o que eu uso agora. Percebo que dormi na sala novamente, ao menos não foi no banheiro. O pescoço não dói devido ao costume de dormir sempre na mesma posição no meu sofá de legitimo couro sintético, no entanto a cabeça parece seguir o ritmo dos meus batimentos.  Consigo me sentar na terceira tentativa e noto que ainda estou de botas de borracha, sinto o frio das barras da calça úmida, e percebo um barro vermelho grudado nelas. Meu lábio continua latejando e minha barriga faz um familiar barulho de fome. Lembro que não coloco comida na boca desde domingo à tarde, quando fique à espera. Falta pouco tempo para amanhecer e eu já tenho que sair novamente. O trabalho nunca termina e ainda tenho muita gente para encontrar nesse meu ofício. Espero que o próximo não me dê muito trabalho. 

recado ao poeta

(poema de pressagio)


tenha calma

quando o destino é seguir
não importa onde se vá
qualquer lugar é aqui
neste tempo
(qual?
passou!)
onde estamos,
onde estou
onde está
infinito-presente-já
lugar de sorrir, de criar, de brincar, de cescer, de ser, de amar, de ficar, de chegar,
de partir, de cantar, de chorar, de sofrer, de doer, de errar, aprender, levantar, de cair
de ensinar, levantar e seguir

giros
ciclos
órbitas!
rabiscadas em
vãos
espaços
vazios

é aqui que somos um.

despertar

 

quando  o despertador  tocou

o corpo esqueceu de novo

mas o cérebro previu o futuro:

eu não morri!

 

foi um sono

o corpo, o cordão e a estrada

o vácuo, o pulmão e o chão

 

a gravidade,  a luz e o teto

um sonho esquecido

num universo secreto

 

entre  meio – adormecido

e meio – desperto, me peguei

tentando fugir

sem ter

para onde ir.

inadequado

 

                   o corpo

                   desprovido de encaixe

                   como um caixa

                   sem fundo,

                   erra

sem caber

ou saber participar

a alma antecipa

a falta de ar

e BERRA.

umbigo

 

umbigo

ambíguo:

 

metade mãe

metade menino

 

fio, conduto, fino

 

      ponte, canal

      canudo

      cano

 

umbigo...

se não me engano,

é por onde eu me desligo

 

 

desembalado

 

dentro do meu desejo

encerra-se um motor

é nele qu'eu viajo

para onde eu for,

mas quase não me movo

apenas queimo o meu querer

 

o mundo que eu quero já É

antes de ser

eu reconheço

antes de ver

eu ofereço

antes de ter

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